quinta-feira, 25 de março de 2010

O MUNDO NA BOCA



Suma daqui

Suba ali no sambaqui

Você quer galgar

Até sua cabeça bater no céu

E criar galo

Quer aparecer que nem Xexéu

Quer mostrar o falo


Sai pra lá

Vá procurar ouro em Sabará

Você quer o mundo na boca

Mas não tem garganta pra engolir

Vá com muita calma

Não queira brincar de ser Peri

Vá catar dendê na palma


Vá embora

Procurar diamante em Angola

Não se limite ao que o povo fala

Vai acabar torto e manquitó

Você acha demais e não sabe nada

Se ocupe, vá fazer filó

Não queira cair morto na estrada



(Alberto Marques)


quarta-feira, 10 de março de 2010

AVIDEZ




Espremo a fruta
Entre os meus dentes
Sinto meus lábios úmidos e ardentes

O sumo é o sêmen
Que sacia a minha fome
Infame ato
De natureza tão pura

Minha saliva pastosa pede pasto
Minha boca não é casta
Incauta, suga e sente prazer
Quero a maciez e o sabor
Quero essa carne na minha boca a se derreter

Meu estômago se enseba
Sinto uma fome cachorra
Sinto a fome de Adis-Abeba
Meu esfíncter pede borra


(Alberto Marques)


ENDÍ


Existe algo além
Da soma das partes
Deste universo cromático
que me vem

Eu busco o Mu

Uma exibição de várias escalas
Traços oníricos
Estáticos

Produção de Iberê, de Inimá

Em transe eu estou
Tudo me fascina
O trigo, a albumina

Me mostro completamente catártico


(Alberto Marques)

EMBRIOLOGIA





















Tudo é reduzido a uma célula
Comprime-se à força centrípeta
Para o centro do corpo
O movimento do broto
Do sêmen
Do zigoto

Um bebê nasce
Nasce como uma flor
No ato completo
Pode-se ver todo o torpor
De um movimento exausto
Seu primeiro ofício
Seu primeiro suor



(Alberto Marques)



PERIPÉTEIA



Eu estava na caverna
Diante das sombras
Com as quais passei a conviver
Nas quais passei a crer
Até que uma alva luz em forma humana
Oposta às sombras emana
E me leva a um passeio tão tépido e confortável
Quanto a carne humana
Quanto o útero materno

Essa luz era uma fada
Com olhos de Hades
E carne de querubim
Com um tridente talhado no braço de marfim

Eu era insone e solitário cavaleiro sem sua espada ardorosa
Eu era Moisés diante da mão leprosa
E tinha medo da chama que não queimava

Me deixei levar pela fada
Fui carregado pelas mãos dessa afrodite
E nas espumas do mar me lancei sem limite

Mas Atena me emprestou seu escudo
E ouvi o pio da coruja que pousou em minha mente
Temendo, fugi repentinamente
Levando comigo um pouco da luz que me surgiu antes do entrudo

(Alberto Marques)